Contos e Desencontros: A visita

Dagoberto tragou de leve o cigarro, pensava nisso desde que tinha começado a fumar, como era engraçado a maneira como o cigarro ficava quente no seu final, este se tornava impossível de tragar, feito de proposito para você jogar fora enquanto tinha fumo, desperdiçando assim um pouco daquela “preciosa” substância, não… essa era  mais uma de suas intrigantes e infundadas paranoias. Estava encostado na janela da sala de seu pequeno apartamento, que ficava virada para oeste, podia ver o sol se pondo todos os dias se quisesse, o céu tingido daquele amarelo escuro era uma das coisas mais bonitas que podia presenciar na natureza, e de graça, mas ele não o fazia normalmente, ritmo de vida acelerado, e agora que ele estava ali, teoricamente sem nada para fazer, ainda faltava-lhe pelo menos uma hora para presenciar tal fenômeno.

Tlim. O barulho agudo do timer de seu forno acordou-o de seus devaneios, virou sua cabeça em direção à porta da cozinha e tentou por ali mesmo formar uma imagem da situação, fitou o vidro escuro do forno por pelo menos dez segundos antes de desistir da preguiça, ou ela dele… ele nunca sabia ao certo. Apagou o cigarro no cinzeiro fazendo subir aquele pequeno fio de fumaça insuportável, e como quem tenta tirar forças da alma usou seu ombro para impulsionar o seu mórbido corpo a movimentar-se, atravessou a sala e entrou na cozinha, olhou incerto o forno por mais vinte segundos, nesse momento se perguntou, porque diabos um vidro escuro, no forno? Seria para ele obrigatoriamente ter que trocar a lampada interna do forno toda vez que a mesma queimasse? Ele nunca fazia isso… não era do tipo “dono de casa”, ele só queria impressiona-la, deixa-la confortável, afinal ela o visitava duas vezes por ano apenas, desde que decidiu viver sozinho, respeitando assim seu espaço e individualidade.

Pacientemente agachou-se e, de cocoras, abriu o forno com MUITO cuidado, era  o medo de ter feito algo errado e era aquela hora que saberia se fez… ele sempre fazia algo errado. Nos instantes que levou para abrir o forno repassou na sua cabeça tudo o que tinha feito, para se garantir de que não teria surpresas: Eram sete e vinte e três da manhã quando recebeu o telefonema dela, sua mãe, dizendo:

-Filho querido, mamãe hoje vai descer para o centro e aproveitar para te dar um beijo pessoalmente.

-Mas mãe, eu trabalho até as seis hoje!

-Não tem problema, mamãe está atarefada e provavelmente você já estará em casa quando eu chegar.

-Eu não moro numa casa mãe, moro num apartamento.

Nesse momento sentiu que sua mãe, do outro lado da linha, dava aquela característica olhada ¬¬. Sobrou o silêncio para ambos. Assim que desligaram ele ligou para seu “sócio” e avisou-o de que infelizmente teria que aguentar a barra hoje, sozinho, a casa estava a mesma baderna de sempre, e já que sua mãe iria visita-lo teria muito trabalho para deixa-la “nos trinques”, acalmando assim o coração da velhinha. Separou a roupa suja, e lavou, guardou a roupa estendida, limpou o chão do seu quarto,  o banheiro tinha mais pelos do que porcelana, lavou tudo com muito esmero, puxou uma receita da internet para Bolo de Laranja, era o preferido de sua mãe, foi até a venda mais próxima e comprou tudo o que precisava:

– 1 laranja sem sementes (com casca)

– suco de 1 laranja

– 2 ovos inteiros

– 1 copo (tipo americano) de óleo

– Trigo

E revisou mentalmente todo o processo de preparação enquanto se formava a imagem do bolo à sua frente: Num liquidificador bata 1 laranja sem sementes com casca, junte 2 ovos inteiros, suco de 1 laranja e 1 copo (tipo americano) de oleo e reserve. Num recipiente junte 4 xícaras (chá) de farinha de trigo, 3 xícaras (chá) de açúcar e 1 colher (chá) de fermento. Junte o creme de laranja reservado. Misture tudo até obter uma massa de bolo. Unte uma fôrma com manteiga e adicionar uma camada fina de açúcar cristal. Despeje a mistura e leve ao forno à 180ºC por 40 minutos.

Sim fizera tudo como a receita mandava… quando a imagem finalmente se formou desligou rapidamente o forno pois o mesmo parecia perfeito, talvez até um pouquinho mais assado que o normal, mas ainda assim com textura e tamanho formidáveis. Com sua luva térmica retirou a assadeira do forno e a repousou sobre o batente da pia, agora vinha a parte fácil, a calda, mais 10 ou no máximo 30 minutos e poderia tomar seu banho e assim o fez. Durante o banho fez questão de fazer a barba, parecia um profeta tamanho suas cabeleiras faciais se estendiam. Aquilo seria resolvido ali.

Quando estava finalmente pronto, com uma boa roupa, casa organizada, banho tomado e bolo assado e com calda olhou para o relógio e já eram quase sete e quarenta e oito, faltavam poucos segundos para as sete e quarenta e oito. Ligou a televisão e ponderou se seria um atraso grande. Sua mãe era pontual, um desses jornais locais passava no canal em que a televisão se encontrava sintonizada, bem na hora que uma noticia sensacionalista sobre roubo e morte passava, aquilo apertou seu coração, sua mãe disse-lhe seis horas! Ou talvez, ele disse a ela seis horas? Não tinha certeza, sofria de um agravado distúrbio de deficit de atenção, do qual não se orgulhava mas convivia com ele discretamente. Passavam-se das oito horas quando perdeu a paciência com a situação, desceu até a portaria do seu prédio e perguntou ao Alfredo, porteiro do período da noite, se tinha visto sua mãe. A resposta negativa o deixou intrigado, deu uma leve espiada para fora do prédio e a imagem do centro de vitória completamente deserto com apenas alguns carros passando, gelou sua alma, subiu rapidamente pelas escadas, morava no segundo andar então não teria necessidade de esperar pelo elevador… ou talvez o elevador fosse mais rápido, talvez o elevador já estivesse no térreo, ele viera pelo elevador? Nada disso era importante corria, preocupado com sua pobre mãezinha passando os perigos noturnos do centro de uma cidade grande. Ofegante já em seu apartamento ligou para casa de seus pais.

-Alo? – Pedrinho maninho, cade a mãe?

Nesse momento ponderou a maneira como ele e seu irmão mais novo, ainda adolescente, tratavam os seus pais um com o outro, via vários “irmãos” que, ao se referir aos seus pais diziam algo do tipo “Minha Mãe”, e como achava aquilo a maior expressão de demência e egoismo familiar. A resposta de seu irmão o tirou de sua viagem.

-Ela foi no centro mais cedo, disse que compraria um tênis novo para o pai, e que passaria na sua casa em seguida, já era para ela estar na sua casa. Você está no serviço?

-Não, estou em casa.

Desligou o telefone sem dar tempo para o irmão processar uma resposta, pegou a chave do carro enquanto vestia um agasalho para privar-se do frio. O desespero e o medo pelo pior já pairava na sua mente. Quando colocou a carteira no bolso do agasalho sentiu seu celular ali. CLARO! O celular, poderia ligar no celular dela, e quem sabe ela apenas estivesse perdida, ou em alguma loja de sapato que estende o seu horário de atendimento, era a esperança de que nada de errado teria acontecido.

Discou pausadamente para não errar: 96231414

-Alo?

-Mãe graças a deus, cade a senhora mãe?

-Oh meu filho, seu irmão acabou de me ligar, estou descendo do ônibus! “Jaja” chego em casa e te ligo na sua casa.

-Mãe eu moro em apar… – não conseguiu terminar sua preposição – Mas mãe… a senhora não viria me visitar hoje?

– Sim meu filho, eu ia, mas a mamãe ficou tão empolgada com as compras que quando dei por mim eu já estava no ônibus de volta para casa, nem lembrei de você.

Era evidente que Dagoberto herdara de alguém seus problemas de atenção e, aquilo o acalmou de certa maneira, mas sobrou dia no final da frustração por toda a epopeia que tinha vivido naquela quarta-feira. Pelo menos teria uma semana – ou menos – de apartamento organizado, como gostava de seu pequeno apartamento.

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8 respostas para Contos e Desencontros: A visita

  1. Tainá disse:

    o seu bolo de laranja eu não sei…
    mas o de chocolate é muito bom, hehe
    =)

  2. Anita disse:

    Q meigo miguxo!!!
    Vc conseguiu escrever algo q não gera em ninguém qualquer sentimento d repulsa, raiva, polemica… Q fofo!!! =D
    Vc faz um bolo desses pra mim qdo eu for no seu AP? =)
    =**

  3. Lih disse:

    mara!!!
    temos um cronista aki!!

    xD

  4. Axly disse:

    Anh? To no blog certo???
    Adorei o texto… além de uma semana de apartamenteo limpo, ele teria um bolo de laranja com calda e tudo soh pra ele…
    Gostei da receita!
    Kisss^^

  5. fabio disse:

    XD kkkkkkkkkkkkkkkk

  6. Envy disse:

    adorei o texto….não cheguei a ler, mas se é do Pride é bom….
    bleeeh ;P~

  7. d_ark_blue disse:

    sugoi!
    omedeto!

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