Europa – Dia 1 (Parte 2)

Bom, vamos lá continuar essa série de textos sobre a minha viagem para a Itália e Espanha. Dessa vez continuo escrevendo sobre o primeiro dia (que na verdade é o segundo, mas como não tinha dormido mais de duas horas, para mim continuava sendo o primeiro) e agora vem sobre o voo para Bolonha e a chegada nessa mesma cidade.

Esse texto faz parte de uma série, o texto anterior e o índice se encontram aqui.

Pois bem, enquanto estava sentado com outros participantes da feira esperando o embarque e reparava nas pessoas que passavam conversando próximas a mim tentando entender o que elas falavam, principalmente nas européias, meu tio começou a fazer comparações. Comparações que ele fez durante toda a viagem e que postarei aqui para encher vocês da mesma maneira que elas me enchiam. A primeira que ele fez foi sobre a ocupação do aeroporto, pois já eram 8hs da manhã e ele ainda aparentava estar vazio, meu tio continuava dizendo que os aeroportos de São Paulo eram muito maiores e sempre ficavam cheios. Para começar, olhem a seguinte foto:

Povo da Vipal esperando o embarque em Madri

Olharam? Repararam no tamanho? Pois isso é apenas UM terminal e eu estava no meio dele, sem contar que essa é a vista de somente um piso. O aeroporto é gigantesco, se não me engano está entre os 10 maiores do mundo e nem Congonhas nem Guarulhos tem condições de serem equiparados em tamanho, temos também que a população de toda a Espanha deve ser entre duas a três vezes a população da grande São Paulo. Madri-Barajas tinha muita gente lá dentro sim, mas é como colocar vinte pessoas em um galpão e depois colocar essas mesmas vinte pessoas em um apartamento de 50m² e dizer que no apartamento tinha mais gente.

Na fila para o embarque reparei na presença de dois bugres e comentei com o meu tio que a fisionomia deles é inconfundível. Meu tio já demonstrava claros indícios de cansaço em sua fisionomia, percebi que ele ia pegar uma poltrona na janela e eu uma no corredor e pedi pra trocar, já que ele ficaria dormindo e eu queria olhar a paisagem, pois não é que ele não quis trocar só de sacanagem? Disse pra ele que isso não se fazia e ele ainda iria tomar no cesso, tudo o que eu queria era tirar algumas fotos da janela e olhar a paisagem, mas tudo bem, minha praga já havia sido rogada.

Quando eu entrei no jatinho até tomei um susto, era o menor avião comercial que eu já tinha entrado, cada linha de poltronas somente possuía 4, mas ele tinha separação entre primeira classe e classe executiva e essa separação era através de uma cortininha vagabunda. Pelo menos as aeromoças eram muito bonitas, magrinhas, mas eu achei bonitas mesmo assim. No voo eu não conseguia ver nada, como esperado, e ficava só tentando enxergar alguma coisa pela janela das poltronas à minha frente, mas era muito ruim e eu continuava remoendo a praga quando olhava para trás e via meu tio dormindo de boca aberta ao lado da janela. Nem encostar na parede do jatinho ele encostava…

Continuei olhando para fora quando comecei a reparar que neve aparecia no topo de uma montanha, depois de mais outra e outra, de repente já era uma cadeia de montanhas com os picos nevados e me dei conta que, por ser primavera, não poderia estar sobrevoando outra coisa além dos alpes suíços. A cena era espetacular, principalmente quando o avião vazia uma pequena curva e eu conseguia ver abaixo da linha de neve, haviam casinhas no meio das montanhas, estradinhas, tudo bem visível, até mesmo para mim que não estava numa posição muito privilegiada, nessa hora meu tio já estava acordado e também presenciou tal paisagem.

Chegamos no aeroporto de Bolonha após uma viagem tranquila e com belas vistas, porém nem havíamos pisado em solo italiano direito para meu tio recomeçar as comparações dizendo que os rios estavam assoreados, que eles não respeitavam a zona que não se pode desmatar ao lado dos rios e o pior: que o aeroporto de Bolonha era fraquinho e que chegava a ser pior que o de Goiânia. Olha, sinceramente, o aeroporto de Goiânia é uma bosta. Bolonha é uma cidade com, sei lá, 300 mil habitantes e o aeroporto era umas duas vezes maior que o de Goiânia, no mínimo e isso sem contar que possuía dois andares. Meu tio parecia querer procurar desculpas pra falar que o Brasil é melhor que os lugares da Europa, nenhum é melhor que o outro, são duas culturas diferentes em mundos diferentes e não custa nada reforçar: o aeroporto de Goiânia é o pior que já fui. Pra provar vou mostrar apenas uma foto do estacionamento e quem já foi em Goiânia vai ver que é melhor.

Só por essa foto safada do estacionamento já dá pra saber que é melhor!

Enfim, lembram dos bolivianos que eu disse que estavam na fila do embarque? Pois mais uma vez vi o preconceito, ou a caguetagem, em ação e eles foram os únicos parados pela polícia do aeroporto. Um até tentou desviar, mas ouvi um policial gritando para o outro que na hora que precisava ele saía de perto e que era para ele ir por trás da coluna, pois o cara estava rodeando.

Bom, agora vamos fazer alguns cálculos. Primeiramente quantas horas dentro de um avião eu havia passado: 1h30 de Goiânia a São Paulo, 11hs de São Paulo a Madri e 2hs de Madri a Bolonha. Total: 13h30. Agora vem o detalhe alarmante, ao menos para mim, pois usando isso como base e sabendo que era meio-dia no horário local, podemos calcular que eu estava a 25hs sem tomar banho. VINTE E CINCO HORAS!! Eu já esta ficando maluco, não aguentava mais, queria chegar urgentemente no hotel, mas mesmo dessa maneira, quando o ônibus ia do aeroporto ao hotel eu me esqueci de tudo e fui admirando todas as construções, paisagens, vista da igreja de São Lucas, portas e muralhas da Bolonha romana, entre outras coisas.

Chegamos no hotel e ao entrar no quarto meu tio começou a apertar todos os botões para ligar as luzes do apartamento, porém as luzes demoravam naturalmente um pouco para acender, o que fazia ele apertar mais e mais botões, inclusive um preto e estranho no banheiro, até que as luzes se acenderam. Olha, eu estava desesperado para tomar um banho, mas meu tio estava mais, ele mal entrou, jogou a mala no chão, catou uma roupa e disse que ia tomar banho primeiro. Enquanto ele tomava banho eu fui pegar a roupa que eu usaria a partir dalí naquele dia, nesse momento o telefone tocou. Fiquei meio receoso em atender, mas como não teria outro jeito, atendi. Ouvi uma voz falar italiano muito rapidamente, eu não compreendi nada e a única coisa que passou pela minha cabeça foi dizer “What?” e o recepcionista começou a falar em inglês comigo.

Faço aqui uma pausa, explicarei o que iria passar pela minha cabeça naquele momento. Cresci ouvindo sotaques italianos em novelas e em filmes como The Godfather ou The Goodfellas, mas sempre achei que aquele sotaque cantado do italiano fosse apenas um exagero para dar um certo tom irreal à cena. Nunca imaginei que o sotaque do Mario em jogos como Mario 64 tivesse algum embasamento real, mas nos próximos minutos eu veria que aquilo era o mesmo sotaque cantado da ficção. Se você nunca teve o prazer de assistir os filmes citados antes, eu nem sei o que faço contigo, mas me conterei e apenas direi para assistir. O vídeo a seguir ilustra bem o que ouvi:

Acha que é zoação do vídeo para ficar engraçado? Então mando uma entrevista com Roberto Benigni:

Viu que é sério agora? Continuemos…

O atendente começou:

– Hellooo. You turnedon the alarme, probable by mistaaake, now the alarme is ringin here in the receeeption. Pleease, push the black button in the baaathroom to turn it offe.

A única coisa que eu consegui fazer foi me segurar para não rir e falar “ok, ok, ok” enquanto ele continuava. Pelo jeito que as coisas estavam indo ele devia estar com uma mão no telefone e a outra com a ponta dos dedos encostados e sendo agitada no ar com movimentos do pulso para frente e para trás. Coloquei o telefone no gancho, me lembrei do botão preto que meu tio havia apertado e fui para o banheiro desligar o tal alarme. Quando abri a porta do banheiro e apertei o botão meu tio me pergunta o que eu estava fazendo, expliquei pra ele e ouço a seguinte frase:

– É… Deve ser essa cordinha aqui que eu puxei…

Como o chuveiro fica dentro de uma banheira, a possibilidade de alguém escorregar é grande, por isso existe tal alarme, mas não fomos os únicos a fazer cagada, e comparado com essa a nossa foi só um peidinho. Um cara do nosso grupo entrou no quarto e decidiu ligar para a sua família, pegou o celular, saiu do quarto e começou a falar, viu uma porta, passou por ela e ficou de boa papeando. Acontece que aquela era uma porta de emergência e quando uma é aberta um alarme soa na recepção e no corpo de bombeiros, se o hotel não desligar o alarme e dizer que era um erro, ao chegar lá e não ter nada os bombeiros aplicam uma multa violenta, por isso o carinha do hotel esculachou completamente o cara que falava ao celular.

Meu tio tirou um cochilo enquanto eu tentei acessar a internet, mas a conexão do hotel era paga e como não estava a fim de pagar, fui assistir TV. O bacana da Europa é que tinham canais em várias línguas, espanhol, inglês, alemão… Fiquei em um canal italiano onde estava passando um debate sobre um referendo sobre a taxação da água que aconteceria por aqueles dias, provavelmente naquele domingo, data em que também aconteceria uma eleição que, se não me engano, era para prefeito das cidades.

Quando confirmei a minha ida para essa viagem uma coisa já ficou fixada na minha cabeça, a necessidade de um iPad. Procurei no Google os locais que venderiam esses tablets e decorei o caminho para chegar neles, assim logo que meu tio acordou eu o chamei para um “passeio”. Primeiro paramos em uma padaria que ficava ao lado do hotel para comermos e usei pela primeira vez os conhecimentos treinados ao falar em italiano que não sabia falar italiano, o atendente disse que não havia problemas, que era só apontar e a gente ia levando. O cara foi muito gente boa, conversava com a gente, explicava os lanches e tals, nada daquilo de maltratar que dizem que fazem. Ele deve atender turistas o tempo todo, pois quando perguntamos o que era uma pasta branca e muito gostosa no lanche escolhido ele disse que era formaggio, cheese e Kartoffel. Estranhei o Kartoffel, pois isso é batata em alemão, mas tudo bem. Dias depois descobri que formaggio é queijo em italiano, o que batia com o cheese. Tomamos também um suco de laranja espremido na hora muito bom, a laranja era diferente, mais doce que as que eu estou acostumado.

Igreja em Bolonha

Continuamos a caminhada para o shopping que ficava a 1km do hotel, passamos sobre a linha do trem, praças e igrejas até chegarmos no shopping. O local estava bem vazio, até pensei estar fechado, mas logo vi que deve ser o movimento de terça de tarde que é fraco mesmo. Encontrei a revendedora da Apple e quando disse que não sabia falar italiano o rapaz disse que não tinha problemas, ele sabia falar em inglês e saiu de trás do balcão para me atender, porém na hora ele acertou uma caixa que tinha um MacBook em cima e o notebook caiu no chão. Naquele momento vi que não importa o lugar do mundo, quando alguém faz cagada sempre possui a mesma expressão, dava pra ver que ele estava putaço com aquilo e que sabia que tinha acontecido uma merda das grandes, foi então que o imbecil aqui perguntou se tudo estava bem, a resposta foi um seco “Não.”, vi que era melhor ficar quieto e só perguntar pelo iPad. Quando perguntei ele riu e disse que iPad estava muito difícil de encontrar, pois a procura era grande e a fila de espera era de um mês. Saí cabisbaixo da loja, não havia conseguido o sonhado produto. Até HQs e livros eu já havia colocado no Dropbox para poder ler durante o tempo livre lá, então eu fui em uma outra loja procurar alguns presentes para esquecer essa decepção.

Chegando na outra loja, que não falarei de que era para não estragar a surpresa caso alguém que possui o nome em algum daqueles presentes leia esse texto, novamente soltei o “Mi dispiaci, ma io no parlo italiano.”, a atendente imediatamente disse que para quem estava fingindo eu falava muito bem, tomei aquilo como um elogio e disse “Solo esto”, acho que alí ela percebeu que eu realmente não falava nada. Mais uma vez foi proposto ficar apontando e conversar devagar para que a comunicação acontecesse. Fui muito bem atendido alí, a mulher apenas pedia para eu falar, pois quando meu tio falava era muito rápido e ela não compreendia, no meio da compra ela ainda disse em tom de brincadeira para um homem da loja que era poliglota, pois estava atendendo brasileiros. Não entendo como tinha pessoas no nosso grupo que reclamavam do atendimento, pois já no primeiro dia fui bem atendido em todos os lugares, incluindo um cara que não conseguiu esconder a raiva e desapontamento por alguns minutos. Uma coisa que me arrependi foi não ter pedido o e-mail da atendente no caixa, mas mesmo se tivesse pedido não sei se começaria uma conversa, então dá na mesma.

Parque próximo à Estação Central de Bolonha. Podemos ver ao centro da imagem uma parte da muralha que cercava a cidade na época do império romano.

Voltando para o hotel percebi que muita gente lá usa bicicletas para se locomover, inclusive existem muitas ciclovias pela cidade e na frente da estação de trem tinham bicicletas para aluguel, onde se coloca uma moeda e a bicicleta é liberada, quando você chega onde quer simplesmente coloca ela num suporte parecido com o que ela foi retirada e pronto. Outra coisa que percebi também foi a quantidade de fumantes, muitos fumantes. Às vezes via uma garota bem bonita andando na calçada e quando percebia ela levava à boca um cigarro, isso destrói qualquer beleza e sensualidade que uma mulher tem para mim. Também reparei que muita gente passeia com seus cães lá e se forem entrar em uma loja simplesmente amarram ele em uma placa até voltarem.

Quando cheguei no hotel não consegui resistir mais à troca de fuso-horário e dormi. Muita gente reclama da troca de fuso, inclusive ela é citada no Clube da Luta, mas não imaginei que o efeito é tão violento daquele jeito. Fiquei completamente perdido e com o relógio biológico desregulado.

No jantar fomos a um restaurante próximo ao hotel, esse restaurante fica no subsolo da cidade, em uma galeria que deve possuir séculos de idade e lá eu tive a primeira oportunidade de comer comida italiana feita por italianos e com produtos italianos. Só posso dizer que estava ótimo. Não saiu caro também, afinal foi a entrada com vários tipos de salames, tortellini a bolonhesa como acompanhamento, salada de frutas de sobremesa, vinho (da casa mas era bom), pão e água por €33. Já no começo um dos participandes daqui de Goiânia ficou me entupindo de vinho, mas como não sou besta eu também bebia muita água e comia muito pão junto para evitar qualquer bebedeira ou ressaca, por conta disso saí do restaurante como cheguei, somente estava satisfeito. No jantar o pessoal que fez o city tour por Bolonha enquanto eu procurava iPads e dormia disse que estava acontecendo um protesto em uma praça e um maluco subiu em uma estátua vestindo somente cueca, infelizmente ninguém conseguiu me explicar sobre o que se tratava o protesto.

Ristorante Bolognese

O cara tenta me embebedar e faz bagunça antes mesmo de começar a beber...

Estação central de Bolonha

Após o belo jantar, onde descobri que era só ir na recepção do hotel pedir por um cartão de acesso a internet e sem custos adicionais, eu consegui conectar e fiquei me atualizando com o que acontecia enquanto conversava com os amigos por horas, indo dormir somente às 3hs da manhã. Tudo culpa da bagunça do fuso-horário…

Bom, aquele dia acabou, ainda nessa semana irá ao ar o texto sobre o segundo dia que cobre a ida a Florença, com mais comidas típicas, contato com outros turistas e ensina também como pedir um mapa emprestado.

Até a próxima. Espero que eu consiga escrever antes do feriado…

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Sobre Felipe Washington

Gott weiss Ich will kein Engel sein.
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4 respostas para Europa – Dia 1 (Parte 2)

  1. Camila disse:

    c tah assanhado não? kkkkkkkk mto boa as suas histórias ri demais.. e vc nem falou dos presentes ahhhhhhhhhhhhh

    • Eu tô assanhado? Só porque falei da atendente bonitinha? Espere então o texto sobre Florença, o de Veneza e o de Madri.
      Sem contar que na faculdade eu tinha que escutar direto uma certa senhorita falando “Nossa, Fulano é lindo!!! Ciclano era lindo, mas era um babaca e esculachou o carinha que pediu dinheiro”. Isso são só algumas, eu conseguiria escrever um texto só sobre essas coisas.

  2. Envy disse:

    Doood…. que top… ri demais nesses 2 textos da sua crusada ao velho mundo. Mais massa foi voce xonando na atendente da loja aeiuaeiuaeuiaeiueiau … as comparações do seu tio tmb foram pró kkkkkk
    vou aguardar os proximos capitulos..

    P.S.: Voce fala do aeroporto de goiânia pq não viu o de floripa ainda…. espeeera pra ver..

    • Ah cara, a atendente era bonitinha, você precisava ver… Falando italiano então…
      Olha, se o aeroporto de Florianópolis for pior que o daqui de Goiânia, parabéns ao povo de lá, que consegue utilizar aquilo e ainda deixa continuar ruim.

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