Europa – Dia 6

Muito bem, contarei hoje como foi a despedida da Itália e a chegada na Espanha. Esse foi um dia meio turbulento para mim, com o ápice da minha gripe européia, mas que mesmo assim gostei bastante de tudo, exceto uma decisão que partiu meu coração…

Esse texto faz parte de uma série, o texto anterior e o índice se encontram nos respectivos links.

Meu voo partiria às 6hs, o que me forçava a acordar às 4h30 muito contrariado, mas como era inevitável me levantei logo e sem café da manhã. Acomodei bem a réplica da Mauser em uma das caixas das estátuas do meu tio, já que ele não queria levar no meio das suas coisas e todos, inclusive a agente de viagens, disseram que eu poderia até perder o voo se tentasse levá-la, mesmo sendo uma réplica, assim pediria para o recepcionista enviar pelo correio ao meu endereço aqui no Brasil. O diálogo foi todo em inglês.

– Pode me enviar isso amanhã? O endereço é no Brasil, mas eu deixo o dinheiro do envio com o senhor. É uma réplica de uma Mauser. – eu disse enquanto abria a caixa e mostrava o conteúdo para ele.

– Infelizmente não, aqui na Itália temos muitas restrições quanto ao envio desse tipo de mercadoria.

– Mesmo sendo uma réplica?

– Sim.

Aquilo doeu em mim, eu queria muito aquela réplica. Ela era linda, perfeita e eu sou apaixonado por esses artigos do começo do século XX, mas pensei logo em como faria com isso aqui no Brasil, que tem leis contra simulacros e aquela era uma réplica perfeita, mesmo sendo impossível de fazê-a atirar ela me traria problemas aqui, logo só achei uma alternativa:

– Bom, já que não tem jeito, fique com ela. Presente para você.

– Como?

– Se você não pode enviar para mim e eu não posso levar isso no avião, eu teria que jogar fora, então eu te dou de presente que é melhor.

– Nossa, muito obrigado, mas ela não é perigosa?

– Não, não. Nem buraco tem, olhe. – e eu mostrava o cano tampado.

– Muito obrigado senhor, já que não é perigosa eu darei para o meu filho brincar.

Eu fiquei triste com aquilo, mas ao menos aquele senhor ganhou um artigo muito bonito. De toda forma isso era melhor que deixar com agentes da polícia ou perder meu voo para Madri. Meu tio ainda teve a capacidade de reclamar, dizendo que se fosse pra dar a pistola a alguém, que fosse pra ele e ele iria tentar embarcar. Na hora só não xinguei meu tio com todos os palavrões que eu conheço porque tenho muito respeito, mas disse pra ele que se ele fosse tentar passar, que tentasse por mim e não se a possuísse. Enfim, de toda maneira eu perdi aquela maravilha e só me resta namorar algumas fotos que encontro na internet.

No aeroporto vi que tem um ponto no qual a Itália se parece muito com o Brasil, lá as pessoas também não respeitam uma fila e furam em todas as oportunidades que aparecem. Não posso dizer com certeza, mas acho que nos países mais ao norte isso não deva acontecer, isso deve ser coisa de latinos mesmo. Fiz o check-in tranquilamente, ao contrário do meu tio, que ficou preso pois a atendente não conseguia encontrar a sua reserva, o que levou a agente de viagens a ir lá resolver o problema. Isso já começou a provar que a minha praga rogada no segundo texto dessa saga tinha funcionado, para mim já era o suficiente, não sou tão malvado assim.

Andando antes do embarque o Leandro Bolonha me diz que precisa trocar uma nota de 500 euros que ele tinha, quando o guichê de câmbio abriu, às 6hs da manhã, chegamos lá e a tirada da mulher me faz rir até hoje. Ela olhou bem para a nota, olhou para a cara dele, olhou para a nota novamente, olhou para o relógio, olhou para ele mais uma vez e soltou: “It’s six in the morning, you now that?”. Foi basicamente tentar comprar uma balinha em uma lanchonete que tinha acabado de abrir com uma nota de 100 reais. Com isso fomos tomar um cappuccino e esperar a hora de embarque.

Meu tio caía de sono e aproveitei para olhar as passagens, nós dois iríamos em janelas dessa vez e finalmente eu poderia aproveitar as paisagens da Europa com uma vista aérea. Embarcamos tranquilamente, fiquei na cauda do avião e meu tio espremido ao lado de um cara IMENSO. Sério, o cara devia ocupar a poltrona dele e mais metade da do meu tio. Acho até que em algum momento eles devem ter quebrado as leis da física que dizem que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço. Aparentemente tenho mais poder do que imaginei e minha praga funcionou bem demais. HA HA!! NELSON MODE: ON

Quando já estava em voo pude ver paisagens maravilhosas, uma mais bela que a outra. Sobrevoamos por uma via aérea que passava pelo mar Mediterrâneo e pude acompanhar toda a costa européia que existe entre a Itália e a Espanha. Vi cidades, tenho quase certeza que vi Mônaco, fazendas de energia eólica, praias, montanhas, cenas indescritíveis e que infelizmente não pude fotografar, mas jamais esquecerei também. Mais uma vez as aeromoças eram muito bonitas, mas o padrão espanhol é meio estranho, já que elas eram magrinhas como as do voo que me levou à Itália. Mas eram muito bonitinhas.

Chegamos no hotel em Madri por volta do meio-dia e eu estava muito cansado, nem tanto pela viagem, mas pela gripe que alcançou níveis épicos apesar da garganta não estar mais doendo. Não sei ao certo o que houve no hotel, mas nem todos os quartos estavam liberados para nós, o que me fez entrar em desespero por precisar urgentemente de um banho e dormir. Por sorte consegui pegar um quarto na primeira leva por precisar de um duplo e fui me acomodar. Quando entrei no quarto com meu tio estranhei, já que só tinha uma cama bem grande. Meu tio me perguntou se o recepcionista entendeu corretamente e eu disse que sim, pois havia confirmado com ele que queria um quarto duplo, mas como estava muito cansado e é só meu tio mesmo, disse que não havia problemas por mim.

Quando fui me banhar e vi a banheira só pensei em enchê-la com água quente, pois na minha cabeça isso me ajudaria a atravessar a enfermidade maldita. Disse ao meu tio que não iria almoçar e ficaria no hotel até o momento do city tour, assim me deitei na banheira e abri a torneira de água quente. A banheira encheu, fechei a torneira e pensei em ficar um pouco alí para descansar, quando dei por mim eu havia dormido mais de meia hora imerso em água quente. Terminei o banho e fui dormir, dessa vez na cama.

Após mais umas 3hs de sono me arrumei para o passeio pela capital espanhola enquanto meu tio dizia que chegou meio-dia no restaurante, mas que teve de esperar até uma hora da tarde para que o mesmo abrisse, já que espanhóis possuem um horário de refeições diferente do nosso. No tour passamos pela Gran Vía e demos algumas voltas pelo centro, mas não me recordo muito das explicações da guia. Vários protestos ocorriam naquela cidade nessa época, percebi que europeus realmente não se contentam com qualquer coisa e que se precisar eles realmente saem às ruas. Vimos também vários ambulantes em um ponto, logo em seguida eles começaram a correr e a polícia vinha logo atrás, dando um baculejo nos presentes. Algo que me surpreendeu foi a quantidade de pessoas que caminhavam por Madri em pleno domingo, algo que eu realmente não esperava. Me desculpem pelas fotos esverdeadas, mas era a cor do vidro do ônibus.

Um dos protestos que encontramos.

Queria que alguém me contasse que local é esse, pois eu realmente não me lembro.

Creio que essa seja a entrada do Museu do Prado. A fila possui esse tamanho em pleno domingo.

Parque de Madri.

Após o passeio de ônibus paramos na Plaza de Toros, onde ocorrem as touradas, e a guia nos explicou que como estávamos em maio ocorriam touradas todos os dias de acordo com a tradição espanhola, mas que no resto do ano elas só ocorrem aos domingos. Eu não sou fã disso, acho que é uma maldade com o pobre animal e prefiro que o matem com dignidade, mas entendo também que é um aspecto cultural daquele país e por isso não tentaria mudar, apenas não iria comparecer a um evento desses. A arquitetura da arena era muito bonita e possuía um estilo que mostra bem a influência muçulmana nos países da Península Ibérica. Aproveitei as várias barraquinhas e comprei algumas lembranças para meus amigos.

Aí está a Plaza de Toros de Madri.

Enquanto nos dirigíamos para o último destino a guia nos chamou a atenção para algumas coisas. A primeira é que Madri naquela época do ano é muito seca, por isso devíamos nos hidratar bem, recomendações normais para mim, já que sempre morei no Centro-Oeste e estou acostumado com humidade relativa do ar baixa. A segunda é que assaltos são raros alí, mas que batedores de carteira tem aos montes, assim deveríamos tomar cuidado com celulares e carteiras, mas que podíamos ficar despreocupados em sermos esfaqueados ou tomarmos tiros. Por fim ela nos diz para não estranharmos o por do sol que ocorria às 22hs, já que era fim da primavera e isso é normal por lá nessa época do ano.

Chegamos então no Estádio Santiago Bernabeu, a casa do Real Madri e nossa última parada antes de voltarmos para o hotel. Alí eu vi que brasileiro também não é só apaixonado por carro, mas que realmente é muito apaixonado por futebol também, ao menos alguns de nós são já que um estava praticamente entrando em colapso nervoso de vontade de entrar no estádio e visitar o museu presente em suas dependências, nem que para isso precisasse voltar de táxi. Eu, como além de não ligar muito para touradas também não ligo muito para futebol, decidi voltar para o hotel e dormir mais um pouco antes do jantar.

Estádio Santiago Bernabeu.

Chegando no hotel dormi novamente, o que mostra o quão acabado aquela gripe me deixou. Passadas mais umas duas horas me levantei e fui jantar, já que não havia comido nada além do lanche no avião. No saguão do hotel encontrei uma senhora que disse ter tido as malas desviadas, mas que não estava preocupada com aquilo, já que sabia que elas apareceriam em algum momento. Fiquei impressionado com a tranquilidade da senhora e com a sua animação, já que ela complementou dizendo que estava na Europa e iria passear enquanto sua bagagem não chegava.

Fui então andar com meu tio, a agente de viagens, que se chama Carla, e seu marido, Marcos, à procura de um lugar para jantar. Não precisei andar muito para perceber que os chineses estão dominando tudo mesmo, vários comércios possuíam donos chineses e até chegavam a ter a fachada escrita em espanhol e mandarim. Após um passeio pelo centro da cidade decidimos comer em um restaurante relativamente próximo ao hotel. Quando fomos pedir nossos pratos meu tio já soltou a sua piadinha do guaraná, mas recebeu um “NÃO” seco do garçom. Após alguns segundos sem-graça meu tio pergunta se ele sabia do que ele estava falando e o garçom responde que sim, que sabia que guaraná é um refresco brasileiro e que eles não tinham alí. Pelo visto vários outros brasileiros engraçaralhos já passaram por aquelas bandas.

Visión Lab em Callao.

Todos pediram seus pratos e eu decidi pedir uma omelete. Algo que notei ao pegar o cardápio é que os refrigerantes alí eram muito mais baratos que na Itália, deve ser questão de costume mesmo. Quando a omelete chegou percebi que eu sozinho não daria conta, pois aquilo era muito graúdo, meus amigos sabem o quanto como e se eu estou falando que era demais para mim após ter ficado um dia inteiro sem comer, pode ter certeza que era MUITO grande, eu estou acostumado com omeletes aqui no Brasil, que mal tem meio centímetro de altura e aquele devia ter quase dois dedos. Com muito custo consegui terminar, dividi ele com os outros presentes na mesa, mas como experimentei alguns de seus pratos, fica na mesma.

Os pratos que provei lá eram bons, mas ainda não eram melhores que os italianos. Comi um pimentão assado, a omelete e o que pensei ser uma linguiça preta. Ninguém sabia identificar o que era aquele tapa, chamamos o garçom que nos atendia e ele nos disse que se tratava de bolo de arroz com sangue de boi. Acreditem, não era ruim, inclusive eu continuei comendo mesmo assim, pois até que gostei daquilo.

Chegamos no hotel e descobrimos que passava o canal Record lá. Eu queria continuar assistindo o canal em alemão, mas meu tio, aparentemente com saudades daqui, insistiu na Record. Aceitei seu pedido e ficamos assistindo uma cópia da Escolinha do Professor Raimundo até dormirmos.

Bem, por hoje chega. Semana que vem viajarei, mas procurarei continuar com os posts sobre a Europa, já que se eu atrasar isso irá se estender mais do que eu gostaria. Aguardem que no próximo texto vem a ida a Toledo, uma cidade com artífices renomados e com fama desde a Idade Média.

Até a próxima. Saiu mais cedo para que eu finalmente ajeite o cronograma.

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Sobre Felipe Washington

Gott weiss Ich will kein Engel sein.
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2 respostas para Europa – Dia 6

  1. Envy disse:

    QUE?!?! Me prometeram fotos de gatinhas européias da viagem à Madri… cade?!?!!? Exijo as fotos. Falando em fotos, sacanagem sobre a Mauser hein… doeu até em mim.. voce poderia ter tirado algumas fotos dela.

    • Guenta as pontas. Espera o dia certo chegar.
      Quero ver se você descobre sozinho.
      Hehehe.
      E sobre a Mauser, realmente, eu debia ter tirado algumas fotos de lembrança, ainda sinto a falta dela…

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