Europa – Dia 7

Muito bem, caros amigos. Os contos da viagem estão chegando ao fim, mas ainda falta muita coisa, mais três dias até a volta para casa. Vamos logo ao que interessa porque eu não tenho muito tempo nas próximas duas semanas, nem mesmo pra pensar em uma introdução melhor, portanto aí vem o texto sobre a visita a Toledo, como deixar seu agente de viagens puto e o sobre o ataque furtivo dos chineses massageadores.

Esse texto faz parte de uma série, o texto anterior e o índice se encontram nos respectivos links.

O dia já começou comigo e meu tio acordando mais cedo que o usual, eu provavelmente pelas inúmeras horas de sono do dia anterior, já meu tio eu não sei a razão. O bom é que naquele dia eu já estava melhor da gripe que havia me atacado antes. Meu tio logo de cara pede para ligar na Record novamente, eu sabiamente pergunto se ele tem certeza, ele diz que sim, quer assistir TV brasileira. Muito bem, a diferença entre os horários era de 5hs a mais para nós, ou seja, como estávamos às 7h30 da manhã a programação que passaria seria a de 2h30 da madrugada e quem já ligou na Record nesse horário sabe bem o que estava passando, digamos apenas que era algo completamente oposto à escolinha do Barulho (se é que esse é o nome mesmo).

Meu tio disse que iria tomar banho primeiro e foi-se enquanto eu ficava assistindo ao canal da terra de Arnold Schwarzenegger. O programa acabou e meu tio ainda estava no banho, fui lá conferir e ele estava, mais uma vez, brincando de fazer bolhas de sabão na banheira, como fez uma vez na Itália. Apressei ele, me arrumei na velocidade de uma Ferrari Enzo e fomos tomar o café da manhã. As opções alí não eram tão variadas como na Itália, mas era  bom também e tinha churros, que eu não sabia ser um alimento de origem espanhola, e algo que só conhecia por filmes e Os Simpsons: Donuts. Lógicamente fui experimentar essas maravilhas e posso dizer que eram excelentes, mas as donuts eram as melhores. Devo ter comido umas quatro naquela brincadeira. Após ter me empanturrado rapidamente das famosas rosquinhas embarcamos no ônibus que nos levaria a Toledo.

Humm... Donuts e churros... E ainda me falaram que devia ter organizado de uma outra maneira, pois façam isso com SEUS alimentos.

Durante o curto percurso entre Madri e Toledo meu tio não parava de falar sobre os rios secos da região, mas ele se esqueceu que não era época de chuvas alí, estavamos em pleno fim de primavera e se você for no nordeste em época de seca verá vários leitos de rios intermitentes secos também. Além disso também pudemos ver algumas oliveiras selvagens chegando no destino.

Chegamos em Toledo e bem na entrada da cidade estava a nossa guia, pena que o motorista não a viu e ela teve que correr atrás por uns cem metros. Demos uma volta por fora da cidade e passamos por uma ponte original da época do Império Romano, o que demonstra a qualidade do serviço daqueles cidadãos. A cidade tem por volta de 4000 anos de ocupação, talvez até mais. Foi lar de El Greco, um grande pintor, e possui artífices renomados desde a Idade Média.

A ponte romana.

Logo depois paramos em um local de onde se tem uma vista panorâmica de Toledo e aproveitei para tirar algumas fotografias, como todos do grupo. Tinha alí uma barraquinha vendendo água e alguns aproveitaram a parada para saciarem a sede, inclusive Clodoaldo, o que me deixou comprar a água em Veneza por 4,50€. Após algumas fotos vejo ele jogar a garrafa morro abaixo, pergunto se ele tem problemas por fazer aquilo, ele me responde que não viu nenhum lugar onde jogar o lixo e por isso fez aquilo, novamente perguntei se ele tinha problemas, já que havia um lixeiro próximo e ele tinha tirado todas as fotos ao seu lado. Quando disse que provavelmente o lixeiro saiu em todas as fotos dele ele foi conferir e lá estava o sapequinha com sua boca preta somente aguardando os depósitos EM TODAS AS FOTOS DELE! Ri demais com aquilo.

Panorama de Toledo. A espuma mais baixa na cachoeira à centro-direita é um pescador.

Mais uma foto que ilustra a razão de não gostar que tirem fotos minhas. Além de não estar centralizado com os prédios ao fundo, o lixeiro aparece aqui.

A próxima parada foi em uma loja de souvenirs, onde novamente aproveitei para comprar os presentes para os últimos amigos que faltavam em minha lista. Vi um trabalho de damasquinado sendo feito por um artesão e depois entrei na loja. Nesse momento eu fiquei paralisado. Eu adoro itens medievais, principalmente espadas e adagas e alí haviam várias, inúmeros exemplares desses itens. Espadas dos mais variados tipos, Platemails completas, escudos, réplicas de armas (o que já não me atraiam mais tanta atenção após ter abandonado a Mauser), brincos, relógios e tudo mais o que você imaginar que possa ser feito com metal e usado em decorações.

Tipo essa Platemail completa, inclusive com a correspondente equina.

Após escolher os itens que levaria fui pagar e a mulher me pergunta:

– ¿Como se habla dieciocho en brasileño?

– Dezoito.

– Diezocho, Diezocho… ¡Como diez e ocho, diezocho! ¡Haha! – Ela diz olhando para uma de suas companheiras de balcão.

– Sim, sim, mas pode falar em espanhol que eu entendo um pouco, não tem problemas.

– Si, pero quiero saber cómo es en brasileño. Diezocho.. – ela respondeu sorrindo.

Após esse diálogo e pagar voltei para o ônibus e esperei a saída dalí.

Conheço gente que ficaria mais louco que eu dentro dessa loja e tentaria comprar tudo...

Nos dirigimos então para a entrada da parte antiga da cidadde, que se encontra no topo de um morro por motivos estratégico nas guerras antigas, e que pode ser acessada através de uma escada rolante, algo que acredito que tentaram fazer com o Cristo Redentor no Rio de Janeiro, mas como nunca fui lá não posso afirmar com certeza.

A muralha e as escadas rolantes, o contraste nas construções.

Como todas as cidades européias que visitei, Toledo tinha muitas igrejas, mas algumas alí tinham uma característica interessante, a arquitetura muçulmana. Pensei se tratar de algo violento, como uma guerra e ocupação de um lugar já ocupado por muçulmanos, mas a guia nos explicou que era muito mais simples: Como os muçulmanos tinham fama de bons construtores, os cristãos os contratavam para construir as igrejas, assim os muçulmanos as construíam com sua arquitetura característica.

Igreja católica com arquitetura muçulmana.

Saindo daquele lugar reparei que o Leandro Bolonha falava de maneira alta a palavra “culo” e pedi para ele parar com aquilo, ele disse que não tinha problema nenhum, já que “culo” significaria “bunda”, eu disse que até onde eu sabia “cu” é bunda e “culo” é “cu” mesmo, mas que por via das dúvidas era melhor não arriscar e parar de falar mesmo assim, ele concordou e parou antes que alguma encrenca pudesse ocorrer.

Outra igreja, dessa vez com arquitetura européia mesmo.

Após mais alguns minutos de caminhada entramos no local onde está exposto “O Enterro do Conde de Orgaz”, uma pintura feita por El Greco do enterro de um homem bondoso que morreu jovem e onde se diz que desceram dois anjos do céu para colocarem tal senhor em seu túmulo. A expressividade de tudo aquilo era impressionante, as cores eram muito vivas e a entrada valeu cada centavo que paguei, já que entrar em contato com algo assim é indescritível, mas infelizmente não eram permitidas fotografias, cliquem no link e vejam na Wikipedia.

Catedral Primada Santa María de Toledo

Quando chegamos na Catedral Primada Santa Maria de Toledo a guia nos liberou, apenas ensinando como seria o caminho até o ponto de encontro, dizendo que deveríamos estar alí às 13hs para que o ônibus pudesse partir e assim teríamos uma hora para comprarmos o que quiséssemos nas lojas locais.

Creio que esse seja o Museu-Hospital de Santa Cruz, na mesma praça da catedral.

Durante a caminhada algo que me chamou a atenção foi como são os semáforos alí, já que eram pequenos postes no chão que subiam ou retraíam conforme o fluxo fosse liberado, mas meu tio estava mais interessado em entrar nas lojas para comprar adagas e estátuas de cavaleiros templários, assim eu ia entrando nas lojas e o acompanhando.

O interior de mais uma loja de Toledo.

Quando eu estava saindo de mais uma loja, enquanto meu tio continuava comprando e eu já estava cansado daquilo, fui chamado pela mulher do Clodoaldo que logo em seguida entrou em um estabelecimento, quando entrei vi que se tratava de um restaurante e eles estavam comento um pedaço enorme de carne, perguntei para eles o preço da comida e se eles demoraram para serem servidos, eles disseram que o prato custava 8€ e que a meia hora que nos restava era suficiente para chegar e comer tranquilamente. Pedi uma refeição igual a do companheiro, fui na loja que estava meu tio, avisei onde eu estava e que era para ele ir lá depois. Quando meu prato chegou eu não acreditei, o pedaço de carne era gigante, maior até que o do Clodoaldo. Inclusive tirei uma foto para a posteridade.

Grande, mas consegui comer tudo tranquilamente.

Vou colocar outra foto aqui para o caso de alguém duvidar do tamanho do prato.

Agora veio o problema, como haviam muitos do nosso grupo nas redondezas a notícia do restaurante se espalhou e caso não comessem alí o povo teria que esperar até chegar em Madri, mas nenhum prato lá teria aquele custo benefício, assim mais e mais pessoas entravam lá, mesmo com o tempo passando, até que faltando cinco minutos para o horário marcado um casal chegou e fez seu pedido, nessa hora tive a certeza que daria merda.

Disse para todos que estavam perto de mim que deveríamos ir avisar aos que nos aguardavam na praça sobre o atraso, mas eles disseram que seria melhor não irmos, pois não sairiam sem a gente, assim eu fui sozinho. Quando cheguei na praça encontrei a agente de viagens, seu marido e a guia e contei sobre o atraso, foi então que o Marcos, o marido da agente, me disse que eles não iriam esperar mais e que eu devia avisar a todos. Por sorte todos já estavam saindo quando voltei, assim voltamos todos para o ônibus, mas isso não diminuiu a raiva de Marcos, que tinha toda a razão de estar assim ao meu ver.

Por sorte teve o alívio cômico, pois quando voltávamos pelas escadas rolantes um senhor, um dos meus companheiros de Museo Ferrari, entrou em uma escada rolante que não deveria, pois já havíamos alcançado o ônibus, assim ele decidiu voltar por ela mesmo ao invés de descer e subir a outra, o problema é que o IMC dele devia ser uns 35 e ele acabou tropeçando quando estava quase chegando, começando imediatamente a rolar pela escada rolante (Rolar pela escada rolante, sacaram? Tá, eu sei que foi ruim.). Nem o Marcos aguentou segurar o riso ao ver aquele senhor de suspensórios rolando escada abaixo, mas ele conseguiu se erguer e voltou correndo pela escada, chegando ao topo.

Após deixar as nossas coisas no quarto nos encontramos com Carla, a agente de viagens, seu marido e mais um casal no hall e fomos passear pela capital, mas primeiro passamos em um restaurante próximo à Plaza de Oriente, pois eles não haviam almoçado ainda. O restaurante era muito bom e fomos muito bem atendidos, gostei muito do pimentão recheado com creme de bacalhau e das músicas que tocaram alí, mesmo me lembrando apenas de uma que era How Deep Is Your Love dos Bee Gees. Fomos então começar o paseio de verdade, primeiramente indo à praça logo em frente.

Plaza de Oriente e suas flores da primavera.

Logo na entrada da praça havia um chinês oferecendo massagem, algo que Marcos prontamente aceitou, já que disse que precisava relaxar um pouco, e meu tio ficou para trás também, assim seguimos sem eles pela praça e fomos ao Palacio Real, onde um dos guardas nos conta que apesar de ser um palácio o rei Juan Carlos não fica alí e sim em um outro nas redondezas da cidade. A praça era bem bonita, por estar na primavera ela estava bem florida e tinham alí várias pessoas, bem o estilo de filmes em que vemos as pessoas deitadas na grama lendo um livro ou tomando sol. Como meu tio e o Marcos estavam demorando e queríamos visitar o prédio voltamos para chamá-los.

Monumento a Felipe IV e ao fundo o Teatro Real. Essa é a primeira estátua equestre do mundo a se sustentar somente pelas patas traseiras.

Quando chegamos na praça eu só tinha visto um chinês, o que ofereceu a massagem ao Marcos, mas agora já tinham mais dois, um fazendo massagem em meu tio e o outro oferecendo massagens. Recusei de novo e então brotou uma chinesa de um metro e meio dos arbustos oferecendo masagem também, recusei novamente, mas essa era diferente, e então ela começou:

– Massage!

– No, no, gracias. – eu disse.

– Massage! No mani! – creio que ela queria dizer “no money”, mas tudo bem.

– No, thank you. – eu já estava quase implorando para ela ir, mas ela não aparentava saber inglês, nem espanhol e eu não sei mandarim.

– NO MANI!! NO MANI!! – agora ela já estava bem agressiva.

Mais uma vez recusei e me virei para falar com meu tio, foi então que ela aproveitou que eu estava de costas e atacou meus ombros com a sua massagem oriental enquanto repetia “NO MANI! NO MANI!”. Disse que não queria e só ia falar com meu tio, começando a andar, mas então ela me segurou e decidi que o melhor seria sair dalí, foi então que ela começou a me puxar, mas apesar de orientais terem técnicas marciais mortíferas, serem capazes de paralizar galinhas com apenas um golpe, pular silenciosamente sobre telhados e escalar bambus com a altura de arranha-céus para lutar com espadas em cima deles, tudo isso sem nenhum equipamento, eu conseguia resistir e me arrastar do local mesmo com uma grudada em mim, foi então que uma outra deve ter usado uma técnica anciã de teletransporte e apareceu do meu outro lado, ficando eu com uma em cada braço. Agora eu já não conseguia mais me mover, mas ainda resistia, até que elas devem ter usado um kaio-ken ao falarem NO MANI juntas e conseguiram me arrastar para o banquinho onde meu tio estava, me fazendo sentar. Eu estava derrotado.

A massagem realmente era boa, mas eu não ia conseguir me relaxar fazendo algo obrigado. Elas tiraram meu tênis, minham meias e uma fazia massagem em minhas costas enquanto a outra fazia em meus pés, mas eu queria ir embora, assim acenei que estava bom, calcei meus sapatos, tirei uma nota de 5€, o que era suficiente pelos cinco minutos que fiquei alí, e fui, então a primeira reclamou, pedindo trinta, me assustei e disse que aquilo estava mais que bom, mas fiquei com dó e como eles não estavam assaltando ninguém eu tirei mais uma moeda de dois euros e entreguei. Ela então implorou por vinte, mas era muito pelo serviço ofertado a mim, foi então que eu me virei e segui, novamente ela me segurou, mas eu percebi que eles não iriam até a polícia, foi então que a arrastei um pouco e ela me soltou.

Catedral de la Almudena.

Como faltava apenas meia hora para o palácio fechar, decidimos que seria melhor deixarmos para uma próxima vez, assim fomos embora, mas no meio do caminho eles decidiram passar no El Corte Ingles e fazer umas compras, nesse momento disse que voltaria sozinho, já que eu sabia o caminho e estava cansado. Voltando encontrei mais alguns do meu grupo em um barzinho e eles me disseram que um cara havia tentado roubar um celular deles. O animal não ouviu a guia falar de roubos e ao sentar na mesa colocou o celular em cima dela, um homem passou, colocou o jornal sobre o celular e saiu andando tranquilamente. Por sorte deles o garçom viu e eles conseguiram recuperar o aparelho. Durante o caminho até o hotel percebi que as pessoas em Madri são muito educadas no trânsito, pois enquanto eu estava parado ao lado de uma faixa de pedestres, os carros e até um ônibus pararam e esperaram a minha travessia. Queria que aqui no Brasil fosse assim também…

Entrei no meu quarto e fui checar a cama novamente, pois tinha certeza que no dia anterior o recepcionista tinha me colocado em um quarto duplo, foi então que vi que, apesar de ter um lençol só por cima, eram duas camas alí, sendo assim as separei e fui assistir TV. Três horas depois meu tio chegou dizendo que a melhor coisa que eu fiz foi ter voltado, pois o povo não parava de comprar e ele ficou todo o tempo andando, logo depois ele viu as camas e perguntou se eu tinha pedido pra trocar elas, respondi que como estava melhor que no dia anterior eu decidi checar e vi que eram duas camas.

Finalmente acabei esse texto, bem no meio de uma viagem ainda, espero que vocês tenham gostado de mais esse, pois o ataque oriental não foi legal na hora. Semana que vem contarei sobre a visita ao Museu del Prado, o porquê de não tentar entender as palavras de outro idioma como elas são no seu e sobre a ida ao espetáculo de dança flamenca.

Até a próxima. Depois do Firefox ter bugado três vezes e me feito perder muito tempo eu finalmente terminei.

Anúncios

Sobre Felipe Washington

Gott weiss Ich will kein Engel sein.
Esse post foi publicado em Viagens. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s